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Entre o Barco e o Avião: os sonhos que partem da Amazônia.

Entre o Barco e o Avião: os sonhos que partem da Amazônia. – Ele estava sentado no porto, mochila simples nas costas, olhando o rio como quem se despede de um velho amigo. A água corria tranquila, sem saber que ali, naquele instante, mais um sonho se preparava para partir.

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Na Amazônia é assim. Uns vão de barco. Outros de avião. Mas quase todos vão com o coração apertado. O jovem respirava fundo, tentando guardar na memória cada detalhe daquele lugar. O cheiro do rio misturado com a brisa quente da manhã. O barulho distante de um motor rabeta. As vozes se misturando entre despedidas e promessas de retorno.

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Fechou os olhos por um instante. Veio a infância. Os banhos de rio ao entardecer, quando o sol pintava o céu de laranja. A bola de meia rolando na rua de barro. A chuva caindo forte sobre a terra quente, levantando aquele cheiro que só quem é daqui conhece. A mãe chamando da porta:

— Não esquece de onde tu veio, meu filho.

Era mais que um conselho.
Era uma raiz.

Ele lembrava do pai chegando cansado do trabalho, das histórias contadas na calçada, dos risos simples, da vida humilde, mas cheia de sentido. Lembrava também das dificuldades, das oportunidades que nunca chegavam, das portas que pareciam sempre fechadas.

Desde cedo ouviu a mesma frase:

“Pra vencer, tem que sair daqui.”

E assim cresce muita gente na Amazônia: aprendendo a sonhar, mas também aprendendo a se despedir.

Alguns partem cheios de esperança.
Outros, empurrados pela necessidade.
Ficam as mães segurando o choro, os pais fingindo força, os amigos prometendo visitas que quase nunca acontecem.

Quem fica aprende a conviver com a saudade.
Quem vai carrega a culpa de ter ido.

O avião decola levando futuros médicos, professores, artistas, atletas, trabalhadores. O barco segue carregando histórias, talentos e uma vontade enorme de vencer. Vão embora não porque querem, mas porque precisam.

E lá fora, longe do rio, da floresta e do calor humano, muitos descobrem que o sucesso tem gosto agridoce. Conquista-se emprego, estudo, estabilidade… mas perde-se o cheiro da chuva, o peixe fresco na panela, o abraço fácil do vizinho.

Alguns voltam anos depois.

Voltam diferentes. Mais maduros. Mais silenciosos. Caminham pelas mesmas ruas e percebem que tudo mudou — e ao mesmo tempo nada mudou. A casa da infância ainda está lá. O rio continua passando. Mas eles já não são os mesmos.

A Amazônia ensina isso.

Que partir dói.
Que ficar também dói.
E que o verdadeiro sonho não é apenas ir embora — é poder voltar.

Porque sucesso mesmo é não esquecer de onde veio. É carregar a floresta no peito, o rio na memória e a família no coração. É entender que vencer não é abandonar as raízes, mas honrá-las.

Aqui, entre o barco e o avião, vão embora milhares de histórias todos os dias.

E a pergunta permanece ecoando nas margens dos rios e nos pequenos aeroportos do interior:

Quando será que nossos filhos poderão sonhar grande sem precisar ir tão longe?

Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS

Almir Souza

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