Energia cara na terra da abundância
Energia cara na terra da abundância – Na Amazônia, a energia nasce em abundância.Rios gigantes cortam o território, hidrelétricas operam a poucos quilômetros de comunidades inteiras, linhas de transmissão atravessam a floresta. Ainda assim, a conta de luz chega pesada — muitas vezes impagável — para quem vive aqui.
O paradoxo é antigo, mas continua atual. Produz-se energia em larga escala, mas quem mora perto das fontes paga como se estivesse distante delas. A luz que ilumina grandes centros e alimenta sistemas industriais pesa no bolso do amazônida comum.
Para o trabalhador, a conta vira cálculo mensal de sobrevivência.
Ligar o ventilador não é luxo — é necessidade. Em um dos climas mais quentes do país, viver sem ventilação adequada afeta o sono, a saúde e a produtividade. Mesmo assim, o medo do valor no fim do mês acompanha cada botão ligado.
Para a mãe, a energia define a rotina da casa.
É o freezer que conserva a comida, a geladeira que protege o alimento do calor, o liquidificador que facilita o preparo. Quando a conta vem alta demais, o cuidado vira escolha difícil: economizar luz ou garantir o básico.
No interior, a contradição é ainda mais cruel.
Comunidades próximas a rios caudalosos enfrentam apagões, energia instável e tarifas elevadas. Em muitos casos, a infraestrutura é precária, mas o valor cobrado não reflete essa realidade. A abundância natural não se traduz em benefício social.
A energia, que deveria ser vetor de desenvolvimento, vira fator de desigualdade.
Sem tarifa justa, sem incentivo real e sem políticas pensadas para a realidade amazônica, o acesso à eletricidade deixa de ser direito e passa a ser peso.
Não se trata apenas de números na fatura.
Trata-se de dignidade. De qualidade de vida. De justiça territorial.
É incoerente que a região que mais produz energia renovável conviva com uma das contas mais caras do país.
Na Amazônia, não falta rio.
Falta decisão política que transforme abundância em bem-estar.
Enquanto isso não acontece, o amazônida segue pagando caro —
pela luz, pelo calor e pela distância histórica das prioridades nacionais.
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





