Comer bem no Norte e no Nordeste não é moda
Comer bem no Norte e no Nordeste não é moda — é necessidade – No Norte e no Nordeste, a alimentação nunca foi apenas uma escolha. Ela sempre esteve ligada ao clima, ao bolso, ao tempo e ao que existe por perto. Em regiões onde o calor cansa, a renda aperta e o acesso nem sempre é justo, comer bem é mais sobrevivência do que tendência.
Falar de alimentação saudável aqui exige respeito. Não cabe receita importada, lista de produtos caros ou discurso distante da feira, do mercado popular e da mesa simples. Comer bem, por aqui, começa com o que é possível — e com o que é nosso.
O calor muda tudo.
Muda o apetite, o preparo, a conservação dos alimentos. O corpo pede comidas mais leves, mais água, menos excesso. E, mesmo sem perceber, muitas famílias já fazem isso há gerações: frutas, raízes, grãos, peixes, ovos, refeições simples e feitas em casa.
Mas há uma contradição que salta aos olhos.
Muitos alimentos naturais da própria floresta amazônica — açaí, castanha, cupuaçu, tucumã, bacaba, pupunha, entre tantos outros — chegam às feiras com preços abusivos para a população local. O que nasce perto vira luxo na própria origem.
Esses alimentos percorrem longos caminhos comerciais, passam por atravessadores, ganham selo de “produto nobre” e retornam às bancas com valores que afastam quem sempre conviveu com eles. A floresta produz, mas nem sempre alimenta quem vive ao redor dela.
Para quem pode mais, o desafio é o equilíbrio.
Com a rotina acelerada, cresce o consumo de alimentos ultraprocessados: produtos prontos, ricos em sal, açúcar e gordura. São rápidos, mas cobram um preço alto do corpo, principalmente em regiões quentes, onde a desidratação e o cansaço se intensificam.
Para quem pode menos, o desafio é o acesso.
Muitas vezes, comer mal não é escolha — é consequência. A comida industrializada costuma ser mais barata, mais durável e mais disponível do que o alimento fresco. Ainda assim, pequenas mudanças fazem diferença: trocar refrigerante por água, suco natural ou chá; reduzir embutidos; valorizar o que ainda chega da produção local.
Comida de verdade ainda é o melhor caminho.
Arroz, feijão, farinha, macaxeira, cuscuz, legumes, frutas regionais, peixe, frango, ovo. Nada disso é novidade. São alimentos que sustentaram gerações e continuam sendo a base mais saudável e acessível quando bem utilizados.
Alimentação saudável não é perfeição.
É constância. É fazer o melhor dentro da realidade de cada casa. É entender que cuidar do corpo também é um ato de dignidade, especialmente em regiões historicamente esquecidas pelas políticas públicas.
No Norte e no Nordeste, comer bem é um gesto silencioso de resistência.
Resistência ao calor, à desigualdade e à lógica que transforma alimento em privilégio.
Saúde começa no prato — e precisa caber no bolso, no tempo e na vida real.
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





