🎅🌿 “O Natal Encantado de Raimundo”
“O Natal Encantado de Raimundo” – Raimundo nunca gostou de dezembro. Isso não tinha nada a ver com neve, trenós ou renas voadoras — afinal, ali na beira do rio Solimões, quem mandava era o calor e o cheiro de chuva. A aversão do menino nasceu da vida real… e também das lendas que o seguiam desde pequeno.
Ele vivia numa comunidade ribeirinha isolada, onde as casas de madeira rangiam com o vento, os peixes saltavam perto das palafitas e o mistério das lendas caminhava livre entre gente e floresta. Aos 12 anos, tudo o que queria naquele Natal era um par de sandálias novas da feira.
E ganhou.
Uma sandália simples, de liquidação, mas para ele era como ganhar asas.
Na manhã seguinte, ansioso para jogar bola no campo de terra, Raimundo calçou o presente… e no primeiro chute, a tira arrebentou.
A alegria dele se desmontou junto com a sandália.
Dizem que, naquele momento, uma criatura observou tudo escondida entre as árvores:
o Curupira, protetor da mata, com pés virados e cabelo de fogo, sentiu o incômodo do menino.
— A injustiça também é uma forma de ferir a floresta, murmurou ele, soprando um vento leve no rosto do garoto.
Mas Raimundo não sabia disso.
Ele só viu os outros meninos correndo na rua com brinquedos novos — uns simples, outros caros, alguns trazidos por barcos que vinham da cidade.
E assim ele percebeu, pela primeira vez, o abismo que atravessava aquela comunidade:
a desigualdade brilhava mais do que qualquer luz de Natal.
Enquanto ajustava a sandália com um pedaço de cipó, Raimundo caminhou até a beira do rio para pensar.
Foi quando as águas começaram a brilhar.
Iara, a mãe-d’água, emergiu com o cabelo escorrendo como serpente de cristal.
— Por que chora, menino?
— “Eu não choro… só não entendo o Natal”, respondeu ele, tentando parecer forte.
— O Natal não foi feito para ser entendido, e sim sentido, disse Iara. Mas o mundo dos homens esqueceu disso faz tempo.
Ela tocou a água, e Raimundo viu imagens refletidas no rio: famílias ricas distribuindo comida apenas em dezembro, políticos posando para fotos, doações que vinham e sumiam como uma canoa sem remo.
— A bondade deles é como espuma… aparece, brilha e some, disse Iara antes de desaparecer nas profundezas.
Na volta para casa, Raimundo encontrou outro ser da floresta:
o Boto Cor-de-Rosa, transformado em homem elegante, de chapéu branco.
Ele tirou o chapéu, cumprimentou o menino e disse:
— Meu pequeno, os humanos gostam de inventar histórias sobre mim, mas a maior fantasia de todas é o Natal deles.
— “Por quê?”
— Porque eles acreditam que amor tem data. A floresta ama o ano inteiro. O rio dá de comer todos os meses. Só o homem precisa de calendário pra lembrar que existe o outro.
Aquela conversa ficou ecoando na cabeça de Raimundo por muitos anos.
Crescido, ele entendeu que dezembro era o mês em que todos queriam parecer bons — mas poucos queriam ser bons.
As lendas que ele conheceu na infância diziam mais verdade do que os discursos que ele ouvia nas confraternizações e nas propagandas da TV.
O Curupira o ensinou que injustiça também é uma forma de destruir.
A Iara o ensinou que bondade sem continuidade é espuma.
O Boto o ensinou que amor não precisa de data.
E assim Raimundo passou a ver o Natal com outros olhos — olhos da floresta.
Hoje, ele diz:
— “Aqui na Amazônia, Papai Noel nunca veio de trenó. Quem traz o verdadeiro Natal são os espíritos da mata, que lembram à gente que amor é todo dia… ou não é amor.”
Para Raimundo, Natal só tem sentido quando o espírito da floresta entra nas pessoas.
Quando o Curupira protege.
Quando a Iara acolhe.
Quando o Boto ensina.
E quando o homem deixa de ser teatro… e vira verdade.
Porque na Amazônia, o verdadeiro Natal não acontece em dezembro.
Acontece sempre que um coração se abre para o outro.
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





