Quando o Silêncio da Floresta Encontra o Barulho da Cidade
Quando o Silêncio da Floresta Encontra o Barulho da Cidade – O sinal fecha. No meio da avenida, cercado por buzinas, ônibus e motos apressadas, fico parado olhando o céu de Manaus, tentando lembrar quando foi a última vez que ouvi o som de um remo cortando o rio.
A cidade não espera ninguém. Ela empurra, acelera, cobra horário, aluguel, boleto e produtividade. Aqui, o tempo corre diferente. Corre sem perguntar se você está pronto. Mas dentro de mim ainda mora a floresta.
Eu, Almir Souza, carrego lembranças que não fazem barulho: o cheiro da terra depois da chuva, o café passado cedo na casa de madeira, o canto distante de um pássaro anunciando manhã nova. Lembro da infância simples, das tardes quentes, da bola improvisada na rua de barro e da liberdade que só quem cresceu perto do rio conhece.
Um dia a gente sai do interior acreditando que o futuro mora na cidade.
E até mora.
Tem emprego, estudo, oportunidade, movimento. Mas também tem solidão em meio à multidão. Tem prédio alto e coração apertado. Tem gente que aprende a sobreviver sem perceber que deixou pedaços de si pelo caminho.
Conheço muitos assim.
Ribeirinhos que viraram urbanos.
Filhos da floresta que hoje respiram concreto.
Gente que troca o silêncio das águas pelo barulho dos motores.
E o barulho da cidade é muito.
Principalmente à noite, quando motoqueiros rasgam as ruas de Manaus como se o silêncio fosse inimigo. O ronco dos escapamentos entorpece as madrugadas manauaras, invade janelas, tira o sono de crianças, idosos e trabalhadores que só queriam descansar.
Mas não é só isso.
Tem também os sons extremos dentro das próprias casas. Caixas de som ligadas no último volume, festas improvisadas que atravessam a madrugada, paredões que fazem tremer paredes e paciência. O direito ao descanso vai ficando pequeno diante do egoísmo barulhento.
Falta, muitas vezes, algo simples chamado respeito coletivo.
Respeito pelo sono do outro.
Pela criança que precisa acordar cedo pra escola.
Pelo idoso que já não dorme como antes.
Pelo trabalhador que volta cansado e só quer silêncio.
A cidade é feita de muitas casas, mas também de muitos corações. E quando alguém aumenta o volume da própria alegria sem medir o impacto, acaba diminuindo a paz de quem está ao lado.
Conviver é entender que liberdade não é fazer barulho — é saber até onde o nosso som alcança.
A cidade não dorme. A floresta, sim. Aqui, aprendemos a correr. Lá, aprendíamos a esperar. Aqui, engolimos saudade. Lá, compartilhávamos histórias.
Às vezes me pergunto se evoluímos…
Ou se apenas aprendemos a viver com menos calma.
Manaus cresce, se moderniza, se ilumina. Mas nem sempre escuta. Enquanto isso, dentro de muitos de nós ainda vive aquele menino que pulava no rio, aquela menina que brincava descalça no quintal, aquela família que sentava na calçada no fim da tarde.
A Amazônia não saiu da gente. A gente é que saiu dela.
Escrevo esta crônica como quem deixa um recado para o futuro — para que fique registrado nas páginas do meu livro Crônicas da Vida Real que somos um povo em travessia. Entre o verde e o asfalto. Entre a memória e a pressa.
E talvez nossa maior missão seja essa:
Não deixar que o barulho da cidade cale o silêncio bonito da floresta que mora dentro da gente.
— Almir Souza
Crônicas da Vida Real





