O Pescador e o Filho Adotivo
O Pescador e o Filho Adotivo – Não sei dizer exatamente como nasceu o amor entre Teodoro e Jacira. Só sei que nasceu longe, muito longe — lá no fundo do mato, onde o silêncio ensina mais do que qualquer escola.
Teodoro era pescador. Pobre, como nunca fez questão de esconder. Nunca frequentou sala de aula, não sabia ler nem escrever, mas conhecia o rio como quem conhece o próprio corpo. Na rede, descansava o cansaço dos dias; na água, enfrentava tudo para não deixar faltar comida. Pescava para vender na cidade, não para enriquecer — apenas para não morrer de fome.
Mesmo assim, alimentava um sonho grande demais para quem tinha tão pouco: ver o filho formado, doutor, alguém apontando e dizendo, sem constrangimento: Esse médico é filho de um pescador.
O destino, porém, não costuma pedir licença. Jacira foi embora. Uns diziam que seguiu para a cidade grande com um antigo amor; outros nunca souberam ao certo. O fato é que Teodoro ficou. Ficou sozinho com Argeu nos braços — o filho que não era de sangue, mas era de alma.
Criou-o com sacrifício. Houve dias em que não comeu para que o menino comesse duas vezes. Durante dezesseis anos, Argeu foi seu único mundo. Desde os dois anos de idade, aprenderam juntos que o que sustenta uma família não é o sobrenome, é o cuidado. Foram mais que pai e filho. Foram amigos. Companheiros contra tudo e todos.
Teodoro nunca enxergou adoção como falta — para ele, adotar era amar em dobro. Nunca passou por sua cabeça explicar ao menino que não era seu filho biológico. Afinal, quem adota, o faz por amor. Pais de adoção são almas que sustentam outras almas em crescimento.
O tempo passou. Argeu cresceu, estudou, conheceu novos caminhos, novos amigos, um namoro. E, aos poucos, foi se afastando do pai. Quatro anos se passaram. No último ano, quase não dava notícias. Até que um dia, a saudade apertou demais em Teodoro. Vestiu seu melhor terno de brim e foi atrás do filho Ao chegar, alguém lhe disse: Seu filho está recebendo hoje o diploma de doutor.
O coração do pescador quase saiu do peito. Queria abraçar o filho do coração, viver aquele momento único. Mas, ao se aproximar, Argeu foi direto, frio: Com esse terno você não pode entrar. Vá embora. – Volte para os seus peixes. Minha vida agora é outra. – Apresentar você aos meus amigos seria uma vergonha. Teodoro tentou falar: – Filho, para você estudar eu precisei muito pescar. Sou um homem honesto. Sempre quis um filho inteligente, formado…
Parou. Respirou fundo. E completou, com a voz cansada: – Vejo na minha frente alguém que estudou muito, mas não aprendeu o essencial. Quem rejeita o pai rejeita a si mesmo — e carrega um vazio que diploma nenhum preenche. Teodoro baixou a cabeça e saiu. As lágrimas misturavam-se à poeira do caminho. Aquele deveria ser o dia mais feliz de sua vida.
De volta ao seu lugar, perdeu o gosto por tudo. Passava os dias na rede. Não pescava, não comia, apenas existia. Os amigos tentaram ajudar, mas a dor da ingratidão é silenciosa e profunda. Cerca de um ano depois, encontraram o pescador morto em sua rede.
Magro. Encolhido. Com o rosto marcado por um sofrimento que ninguém conseguiu aliviar.
Teodoro carregou a dor da ingratidão até o fim. Nada dói tanto quanto a ingratidão de um filho. Sentiu que fracassou, que todo amor foi em vão — e mesmo assim, nunca deixou de amar.
Todos atravessamos fases. Todos erramos. Uns mais, outros menos. Mas nunca abandone seu velho pai ou sua velha mãe. Graças a eles, você existe.
Um coração idoso continua amando — mas precisa de muito mais cuidado. Porque amor é vida. Quando você muda a maneira como vê as coisas, as coisas que você vê também mudam.
Por Almir Souza – Escritor
Fonte Redação Fama
Foto AAS





