O Norte e o Nordeste usados como discurso, nunca como prioridade real
O Norte e o Nordeste usados como discurso, nunca como prioridade real – O Brasil tem um vício antigo: quando não quer enfrentar um problema, ele o transforma em paisagem. Aquilo que incomoda deixa de ser conflito e passa a ser cenário. Foi assim com o Nordeste, tantas vezes reduzido à caricatura — “voto suspeito”, “povo atrasado”, “terra de dependência” — sempre que sua força política contrariou o orgulho de quem se imagina dono do país.
Não se trata de desconhecimento. Trata-se de escolha. Ao longo da história, o Nordeste foi chamado quando o país precisou produzir riqueza rápida e descartável: açúcar, algodão, mão de obra barata, migração forçada. Quando cobrou retorno estrutural, virou problema. Quando decidiu politicamente, virou suspeita.
A região foi empurrada para o imaginário da dependência, como se pobreza fosse traço cultural e não consequência de séculos de exploração e abandono planejado.
O mesmo mecanismo se aplica ao Norte — com ainda menos pudor. A região é frequentemente apresentada como uma imensa mancha verde no mapa, exaltada como símbolo ambiental e estratégica para o mundo, mas ignorada como território humano. O Norte interessa enquanto floresta, enquanto fronteira, enquanto discurso climático. Passa a incomodar quando exige estrada, escola, ciência, saneamento, conectividade, soberania e desenvolvimento real.
O país aprendeu a falar do Norte e do Nordeste sem falar com o Norte e o Nordeste. Transformou regiões inteiras em argumento retórico: ora como celeiro de votos, ora como reserva ambiental, ora como explicação conveniente para desigualdades que se recusou a enfrentar. O discurso sempre veio antes da política pública. A promessa, antes do investimento. A narrativa, antes da presença do Estado.
Não é coincidência que essas regiões apareçam com força apenas em períodos eleitorais ou em momentos de crise — seca, enchente, desmatamento, pobreza extrema. Fora disso, desaparecem do planejamento nacional. Não estão no centro dos projetos de ciência, tecnologia e inovação. Não lideram os investimentos estruturais. Não são tratadas como prioridade contínua, apenas como urgência episódica.
Esse modelo produz consequências profundas: êxodo de jovens, dependência econômica, fragilidade institucional e a perpetuação de estigmas. Populações criativas, resilientes e produtoras de conhecimento são empurradas para a invisibilidade, enquanto o país insiste em repetir a falsa narrativa de incapacidade regional.
Este ensaio não propõe vitimização. Propõe responsabilidade histórica. Não existe projeto nacional sólido enquanto partes inteiras do território são tratadas como cenário ou moeda discursiva. Não há futuro possível para um país que se emociona com a paisagem, mas se esquiva das pessoas que vivem nela.
O Norte e o Nordeste não pedem privilégios. Exigem prioridade real. Planejamento de longo prazo. Presença contínua do Estado. Respeito político e investimento proporcional àquilo que sempre entregaram ao Brasil.
Enquanto forem usados apenas como discurso, o Brasil seguirá refém de sua própria desigualdade estrutural — travestida de normalidade.
E normalizar o abandono é, talvez, a forma mais sofisticada de perpetuá-lo.
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





