O amazônida não romantiza a floresta
O amazônida não romantiza a floresta — ele convive com ela – Para quem mora longe, a floresta costuma ser ideia. Imagem bonita, discurso pronto, símbolo conveniente. Para quem vive aqui, a floresta não é metáfora — é presença diária. Não se romantiza aquilo que faz parte da rotina.
O amazônida não acorda pensando em paisagem. Acorda pensando no calor, no transporte, no trabalho, na chuva que pode atrasar o dia, no rio que pode subir ou baixar. A floresta está ali, mas não como cenário turístico. Está como vizinha constante, às vezes generosa, às vezes exigente.
Conviver com a floresta é aprender limites.
Saber onde pisar, quando sair, o que plantar, o que colher, o que evitar. É conhecimento passado de geração em geração, sem glamour, sem legenda bonita. Um saber prático, moldado pela necessidade.
Enquanto muitos falam da Amazônia como santuário intocado, o amazônida fala de moradia, alimento e sobrevivência.
Não há romantização quando a vida depende do equilíbrio diário entre natureza e necessidade humana.
O problema começa quando o discurso vem de fora.
A floresta vira bandeira, o amazônida vira figurante. Decide-se muito sobre o território sem escutar quem vive nele. Protege-se no papel, mas ignora-se na prática a vida real de quem convive com rios, matas e cidades ao mesmo tempo.
A Amazônia não é só floresta fechada.
É cidade, periferia, interior, estrada de barro, feira, porto, concreto quente e mata ao redor. O amazônida sabe disso porque vive essa mistura todos os dias.
Conviver não é destruir.
Mas também não é congelar a vida no tempo. É buscar equilíbrio, dignidade e respeito — coisas que raramente aparecem nos discursos prontos.
O amazônida não pede romantização.
Pede escuta.
Porque ninguém entende mais da Amazônia do que quem vive dentro dela.
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





