Geração nem-nem? Juventude brasileira entre a evasão escolar, o desemprego e a vulnerabilidade social
Geração nem-nem? Juventude brasileira entre a evasão escolar, o desemprego e a vulnerabilidade social. – Quase um em cada cinco jovens brasileiros não estuda nem trabalha.
O dado, divulgado pelo IBGE, expõe uma realidade que vai além dos números e revela um problema estrutural: milhares de jovens estão sendo deixados para trás pelo sistema educacional, pelo mercado de trabalho e pelas políticas públicas.
O fenômeno conhecido como “geração nem-nem” não nasce do desinteresse ou da falta de vontade. Ele é consequência direta da evasão escolar, da precarização das oportunidades e da desigualdade social, especialmente nas regiões mais vulneráveis do país — como a Amazônia.
Evasão escolar: o primeiro rompimento
O abandono precoce da escola é um dos principais fatores que empurram jovens para fora da formação intelectual e do mercado formal. Sem concluir os estudos, as chances de inserção profissional diminuem drasticamente. O resultado é um ciclo perverso: quem sai da escola cedo encontra portas fechadas no trabalho e, sem trabalho, vê cada vez menos sentido em retomar os estudos.
No Brasil, esse ciclo se repete de forma silenciosa, transformando jovens em estatística antes mesmo de terem a chance de sonhar.
O retrato do Amazonas: juventude à margem
No Amazonas, o cenário é ainda mais preocupante. Em 2023, 273 mil jovens entre 15 e 29 anos não estudavam nem trabalhavam. Isso representa 23,9% da juventude do estado — quase um quarto dessa população.
Em Manaus, a realidade se reflete nos bairros periféricos, onde faltam políticas públicas contínuas, escolas estruturadas, acesso à cultura, ao esporte e à qualificação profissional. Para muitos jovens, o futuro parece distante demais para ser alcançado.
Analfabetismo ainda é uma ferida aberta
Outro dado que ajuda a explicar essa exclusão é o analfabetismo. O Amazonas registrou, em 2023, 5,1% de taxa de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais, o que corresponde a 156 mil cidadãos. Embora o índice esteja ligeiramente abaixo da média nacional (5,4%), o estado ocupa a 14ª posição entre as maiores taxas do país, revelando que o acesso à educação básica ainda é um desafio concreto.
Sem leitura, sem escrita e sem oportunidades, muitos jovens ficam presos a um presente sem perspectivas.
Drogas, tráfico e aliciamento: o risco cotidiano
A vulnerabilidade social abre espaço para outro problema grave: o avanço do tráfico de drogas. No Amazonas, o cenário é alarmante. Em 2025, o estado registrou recordes históricos de apreensão de entorpecentes, ultrapassando 46 toneladas. O número revela a intensidade do tráfico na região e o impacto direto sobre adolescentes e jovens.
Facções criminosas se aproveitam da falta de alternativas e aliciam jovens, inclusive em comunidades indígenas do interior do estado, oferecendo uma falsa sensação de pertencimento, renda rápida e poder. Para muitos, o crime acaba surgindo como a única porta visível.
Não é desinteresse, é abandono
Rotular essa juventude como “nem-nem” é simplificar um problema profundo. Esses jovens não estão parados porque querem. Estão parados porque:
a escola não conseguiu mantê-los;
o mercado não conseguiu absorvê-los;
o Estado não conseguiu protegê-los.
Trata-se de uma geração que cresce entre a exclusão e o risco, observando oportunidades passarem longe de sua realidade.
Um alerta que não pode ser ignorado
A juventude brasileira — especialmente a amazônica — precisa de educação de qualidade, formação profissional, políticas públicas permanentes, cultura, esporte e oportunidades reais de trabalho.
Ignorar esses dados é aceitar que milhares de jovens continuem invisíveis, vulneráveis e à mercê da criminalidade.
Mais do que estatísticas, esses números representam vidas interrompidas antes mesmo de começarem.
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





