Brasil: ame-o ou deixe-o
Brasil: ame-o ou deixe-o – Houve um tempo em que essa frase ecoava como slogan, quase um ultimato patriótico. “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Curta, dura, sem espaço para dúvidas — ou questionamentos.
Amar o Brasil, naquele contexto, significava obedecer. Significava calar. Significava aceitar a ordem, mesmo quando ela vinha carregada de injustiça.
Mas o Brasil mudou. Ou pelo menos deveria ter mudado.
Hoje, amar o Brasil não pode mais ser sinônimo de fechar os olhos.
Não pode ser aceitar desigualdade como destino, fome como estatística ou violência como rotina.
Amar o Brasil é ter coragem de dizer que algo está errado — mesmo quando isso incomoda.
Quem ama, cuida.
Quem ama, questiona.
Quem ama, não abandona.
O problema é que essa velha frase ainda insiste em sobreviver, disfarçada em discursos modernos. Ela surge quando alguém critica a corrupção e é chamado de “inimigo da pátria”.
Quando alguém defende a Amazônia e é tratado como obstáculo ao progresso.
Quando pedir dignidade vira “reclamar demais”.
Não, não é assim.
Deixar o Brasil nunca foi uma escolha simples.
Quem parte, muitas vezes, não deixa por falta de amor — mas por excesso de dor.
Dor de ver oportunidades negadas.
Dor de trabalhar muito e colher pouco.
Dor de perceber que o país insiste em caminhar para trás enquanto o povo empurra para frente.
O Brasil real não cabe em slogans.
Ele vive nas periferias, nas comunidades ribeirinhas, nas aldeias indígenas, nos bairros esquecidos e nos sonhos adiados.
Ele pulsa em quem fica, mesmo cansado.
Em quem luta, mesmo desacreditado.
Talvez a frase precise ser reescrita.
Não mais “ame-o ou deixe-o”.
Mas: ame-o, critique-o, proteja-o e transforme-o.
Porque o verdadeiro patriotismo não grita.
Ele constrói.
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





