Amazônia

A paciência acabou, a lucidez não

A paciência acabou, a lucidez não – Não é raiva. É lucidez. O Brasil costuma confundir cansaço com ódio, crítica com extremismo, lucidez com rebeldia. Mas o que se vê hoje não é explosão emocional — é esgotamento consciente. A paciência acabou porque foi abusada. A lucidez permanece porque ainda há quem pense.

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Durante anos, disseram ao povo para esperar. Esperar o próximo governo, a próxima reforma, a próxima promessa. Esperar que a democracia amadurecesse sozinha, como se instituições crescessem sem responsabilidade. O tempo passou. As promessas também.

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E o país continuou parado, repetindo erros com discursos novos. Ter paciência não significa aceitar tudo. Significa sustentar processos que fazem sentido. E o Brasil parou de fazer sentido há algum  tempo.

A lucidez começa quando se percebe que o problema não é um evento isolado, mas a normalização do absurdo. Quando decisões erradas deixam de chocar. Quando injustiças viram pauta técnica. Quando o caos ganha verniz jurídico. É aí que o cidadão lúcido entende: não é falta de informação, é excesso de conveniência.

Na Amazônia, essa lucidez dói mais. Aqui, a distância do poder revela o abandono real. Obras que nunca chegam. Estradas que viram promessa eterna. Direitos que só existem no discurso. A BR-319 não é apenas uma rodovia — é o símbolo de um país que decide à distância e ignora quem vive a realidade. Para uns, debate. Para outros, isolamento.

A paciência acabou porque foi exigida apenas de um lado. Do povo. Nunca do sistema.

Exigiram paciência de quem espera saúde, educação, respeito e infraestrutura. Mas nunca exigiram consequência de quem governa mal, legisla por conveniência ou julga sem ouvir a realidade social. Essa assimetria é o que destrói a confiança e corrói qualquer democracia.

A lucidez, porém, permanece.
Ela se manifesta no silêncio crítico.
Na recusa ao aplauso fácil.
Na decisão de não aceitar o errado só porque virou rotina.

Como ensinava Cartas a um Jovem Poeta, viver exige atravessar perguntas sem respostas imediatas. Mas o Brasil fez o oposto: criou respostas rápidas para não enfrentar perguntas profundas. E agora colhe um país impaciente, não por pressa, mas por maturidade.

Não é desejo de ruptura.
É necessidade de correção.

Quando a paciência acaba e a lucidez fica, nasce algo perigoso para quem se beneficia do caos: consciência coletiva. Um povo que já não aceita ser tratado como espectador do próprio país. Que entende que estabilidade não é imobilidade, e ordem não é autoritarismo — é responsabilidade.

O Brasil não precisa de discursos mais bonitos.
Precisa de decisões mais sérias.
Precisa parar de tratar o improviso como virtude e o erro como fatalidade.

A paciência acabou.
E isso não é ameaça — é diagnóstico.

A lucidez ainda existe.
E enquanto existir, ainda há chance de reconstrução.

Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS

Almir Souza

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