O Circo Brasil
O Circo Brasil – Ensaiei meu samba o ano inteiro pra assistir ao Circo Brasil. Achei que vinha festa, alegria, cores e esperança. Mas o que encontrei foi um espetáculo triste, um palco armado sobre a dor do povo.
Entre sambas-enredo e blocos, as favelas viraram “comunidades” apenas no discurso. Na prática continuam sem saneamento, sem escola digna, sem hospital funcionando. O maior astro foi descondenado, e nós, brasileiros, viramos bobos da corte — sem lenço, sem documento — assistindo calados ao show de horrores.
Tudo pra acabar na quarta-feira.
O presidente vira presidenta e segue direto pro exame de próstata, enquanto a rainha — que não é rainha — desfila em carros blindados, protegida por seguranças, longe da realidade das ruas.
Nas calçadas, catadores de lata empurram carrinhos. Franelinhas disputam vagas. Pais de família disputam ossos em açougues. Jovens são seduzidos pelo tráfico porque o Estado nunca chegou primeiro. Esse é o verdadeiro desfile. Esse é o carnaval brasileiro que não passa na televisão.
O trabalhador acorda às cinco da manhã, enfrenta ônibus lotado, calor, violência e humilhação, pra ganhar um salário que mal paga o aluguel. O imposto come tudo. A inflação come o resto. A dignidade vai ficando pelo caminho.
Enquanto isso, políticos fazem manobras, aprovam benefícios próprios e gastam seiscentos contos pra comprar aplausos, disfarçados em cores, bandeiras e personagens caricatos. Transformaram o brasileiro em plateia. E plateia não decide nada — só assiste.
O pobre paga imposto até no feijão. O rico negocia isenção. O pequeno empresário fecha portas. O grande recebe incentivo. A mãe solo cria filhos sozinha. O aposentado escolhe entre remédio e comida. O estudante sonha em ir embora do país.
Tudo termina na Polícia Federal, que já não consegue prender mais ninguém. Porque, se for pra prender todos, tem que cercar o Brasil inteiro.
A corrupção virou rotina.
A mentira virou método.
A exploração virou sistema.
Exploram o corpo do trabalhador. Exploram a fé do povo. Exploram a ignorância. Exploram a esperança.
O brasileiro é explorado quando trabalha demais e recebe de menos.
Quando paga caro por serviços precários.
Quando vota e depois é esquecido.
Quando acredita em promessas que nunca chegam.
Quando vê bilhões circulando no topo enquanto falta arroz no fundo da panela.
E o povo?
O povo sobrevive.
Sobrevive em filas, em promessas, em salários atrasados, em hospitais sem gaze, em escolas sem futuro. Aprende a engolir seco, a sorrir em foto oficial, a agradecer migalha como se fosse conquista.
Seguimos assim: um país rico com povo pobre, uma nação gigante com alma cansada, uma democracia onde poucos mandam e milhões apenas obedecem.
O Circo Brasil continua armado.
E nós seguimos sentados na arquibancada, assistindo calados ao que há de pior na face da terra.
E se essa foi só a primeira noite, prepare o coração.
Porque o Circo Brasil não fecha cortinas —
apenas troca os figurinos,
enquanto o povo segue pagando ingresso
para assistir à própria sobrevivência.
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





