Amazônia

O Tapajós não está represado — está sitiado

O Tapajós não está represado — está sitiado – Eu, Almir Souza, venho acompanhando essa tragédia em silêncio, mas chega um momento em que a gente precisa falar. O Rio Tapajós ainda corre livre em sua calha principal. Não há grandes barragens segurando suas águas.

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Mas isso não significa que ele esteja em paz. O Tapajós hoje está sitiado. Acompanho de perto essa tragédia silenciosa que avança pelo oeste do Pará. E quanto mais observo, mais fica claro: quem realmente está defendendo esse rio são os povos indígenas e as comunidades ribeirinhas.

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No fim de 2025, o governo federal lançou editais para dragagem no trecho entre Santarém e Itaituba. A justificativa é transformar o Tapajós numa hidrovia industrial para escoar soja e grãos. Na prática, isso significa remover sedimentos do fundo do rio, alterar seu curso natural e abrir caminho para um modelo de desenvolvimento que ignora quem vive ali há séculos.

A dragagem começou sem licenciamento ambiental adequado.
Sem consulta prévia.

Um desrespeito direto à Convenção 169 da OIT.

Diante disso, lideranças Munduruku e comunidades ribeirinhas ocuparam espaços simbólicos, como o terminal da Cargill em Santarém. Não por radicalismo — mas por sobrevivência.

Eles sabem o que está em jogo. Botos, peixes, pesca artesanal, sítios arqueológicos, roçados, cultura, espiritualidade. A soberania alimentar de povos inteiros ameaça virar estatística.

Depois de muita pressão indígena, o governo suspendeu, em 6 de fevereiro de 2026, o pregão eletrônico da dragagem de manutenção no Tapajós. Uma vitória momentânea. Um respiro curto.

Porque a ameaça não acabou. Enquanto isso, o mercúrio do garimpo continua contaminando as águas. Máquinas avançam pela floresta. Barcos clandestinos cruzam o rio. Peixes surgem mortos. Crianças crescem vendo o Tapajós adoecer.

E o restante do Brasil? Segue distraído. Distraído com escândalos, corrupção, disputas políticas vazias.
Tão ocupado com o barulho do poder que já não consegue enxergar o silêncio da floresta sendo destruída.

O Tapajós não é apenas um rio. Ele é estrada, alimento, memória, identidade.

Transformá-lo em corredor de exportação é reduzir a Amazônia a planilha.
É trocar vida por lucro rápido.

Os povos indígenas estão na linha de frente. Sentem primeiro. Perdem primeiro. Resistem quase sozinhos enquanto muitos apenas observam.

O Tapajós não precisa de discursos. Precisa de proteção real. Se hoje calamos, amanhã não haverá mais peixe, nem floresta, nem histórias para contar. Só silêncio. Ou salvamos agora, ou seremos lembrados como a geração que deixou morrer.

Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS

Almir Souza

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