Quando o Carnaval homenageia o poder e esquece o povo
Quando o Carnaval homenageia o poder e esquece o povo – Talvez o maior absurdo dos nossos tempos não seja apenas a crise política, econômica ou moral. Talvez seja o fato de que, mesmo em meio a tudo isso, o país ainda encontre espaço para celebrar quem representa exatamente o que nos trouxe até aqui.
O Brasil entra em fevereiro atolado em problemas. Corrupção naturalizada. Instituições desacreditadas. Um povo cansado de pagar a conta enquanto assiste aos mesmos nomes circularem entre cargos, discursos e homenagens.
E, ainda assim, no auge da maior festa popular do país, surge a decisão que beira o escárnio: transformar figuras do poder em enredo de Carnaval, como se fossem exemplo, orgulho ou inspiração nacional.
O Carnaval nasceu do povo. Da rua. Da crítica. Da irreverência contra o poder. Quando a festa passa a homenagear o próprio sistema que oprime, algo se quebra.
Mais grave ainda é quando essas homenagens vêm cercadas de cifras milionárias, patrocínios generosos e relações pouco explicadas. A arte deixa de ser expressão popular e passa a parecer vitrine de conveniência.
Não se trata de censurar escola de samba, artista ou manifestação cultural.
Trata-se de questionar quem está sendo celebrado — e por quê.
Enquanto comunidades seguem sem saneamento, saúde e dignidade, enquanto regiões inteiras como a Amazônia permanecem invisíveis no debate nacional, o país escolhe aplaudir símbolos do poder como se fossem heróis.
Isso não é cultura popular.
É desconexão.
O povo brasileiro não precisa de ídolos fabricados pelo sistema.
Precisa de respeito.
Precisa de memória.
Precisa de exemplos que venham de baixo, não de cima.
O Carnaval pode — e deve — ser festa, crítica, alegria e resistência.
Mas quando vira palco de exaltação do poder, ele perde sua essência.
E talvez o maior ato de consciência hoje seja simples: não confundir espetáculo com verdade, nem homenagem com merecimento.
Por Almir Souza – Escritor
Fonte Redação Fama
Foto AAS





