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O trabalhador, a mãe, o jovem, o idoso

O trabalhador, a mãe, o jovem, o idoso – O calor chega antes do dia. Antes do café, antes do ônibus, antes da pressa. Ele entra sem pedir licença, se espalha pelos cômodos, cola na pele e no pensamento. No Norte, o calor não é notícia. É companhia antiga.

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O trabalhador aprende a medir o tempo pelo cansaço. A mãe aprende a ouvir o corpo dos filhos antes que a febre venha. O jovem aprende que sonhar também cansa. O idoso aprende a economizar passos, palavras, fôlego.

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Aqui, viver é um exercício de adaptação diária. Não há manual, nem pausa oficial. Há o jeito, o improviso, a resistência silenciosa de quem segue porque precisa seguir.

O trabalhador sente primeiro no corpo.
O suor que não seca, o cansaço que se antecipa ao esforço, a produtividade cobrada como se o ambiente fosse neutro. Trabalhar sob calor extremo exige mais do que força física: exige resistência emocional. E quase nunca há pausa, sombra ou adaptação.

A mãe sente no cuidado.
É ela quem ajusta a alimentação, quem troca a água o tempo todo, quem improvisa para manter a casa respirável. Em dias de calor intenso, o cuidado vira vigilância constante: hidratar, proteger, acalmar. Um trabalho invisível, mas exaustivo.

O jovem sente no limite.
Quer estudar, trabalhar, sonhar, mas o corpo pede descanso. O calor afeta o foco, o sono, o humor. Em uma região onde oportunidades já são escassas, até o clima parece testar a persistência de quem tenta ir além.

O idoso sente no silêncio.
O calor pesa mais, a saúde fragiliza, o risco aumenta. Muitas vezes, falta acompanhamento, falta estrutura, falta atenção. O que sobra é a adaptação forçada — e a solidão de quem já viveu muito, mas ainda precisa resistir.

No Norte, todos aprendem a se adaptar.
Mas adaptação constante não pode ser sinônimo de abandono. O calor extremo escancara desigualdades antigas: moradia precária, transporte inadequado, acesso limitado à saúde, políticas pensadas longe da realidade amazônica.

Este não é um texto sobre clima.
É sobre pessoas.
Sobre corpos que sentem, mentes que cansam e rotinas que seguem, mesmo quando tudo pesa.

Viver no Norte sempre foi um ato de resistência.
Mas resistir, todos os dias, não deveria ser a única opção.

Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS

Almir Souza

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