Esperançar: um verbo necessário para a Amazônia
Esperançar: um verbo necessário para a Amazônia – “O sol há de brilhar mais uma vez”, canta Nelson Cavaquinho em Juízo Final. O verso atravessa gerações como um chamado silencioso à esperança — sentimento muito falado e, ainda assim, pouco aprofundado. Na Amazônia, onde o tempo do rio ensina a paciência e a floresta lembra a persistência, a esperança não é promessa vazia: é força que sustenta a vida.
Costuma-se associar a esperança à virtude, à fé e ao amor. Mas ela vai além da crença. É aquilo que abre espaço para o amanhã quando o hoje aperta; é a coragem de seguir mesmo quando tudo parece indicar o contrário. Para quem vive às margens de rios extensos, em comunidades urbanas e rurais que enfrentam desafios históricos, a esperança é prática cotidiana.
O filósofo Mario Sergio Cortella ajuda a compreender essa diferença essencial ao falar do verbo esperançar. Não se trata de esperar parado, mas de agir. Esperançar é ir atrás, insistir, construir caminhos. É movimento. É decisão.
A psicologia também reconhece a esperança como uma das emoções humanas mais importantes. O pesquisador norte-americano Charles S. Snyder descreveu o sentimento como uma ideia motivacional: a capacidade de imaginar rotas possíveis para alcançar objetivos. Em outras palavras, esperança é saber que há caminhos — e se dispor a procurá-los.
Estudos indicam que cultivar a esperança contribui para uma vida mais leve e pode ajudar a enfrentar períodos de sofrimento emocional. Pesquisas conduzidas pela psicóloga Jennifer Cheavens mostraram que pessoas que nutrem esse sentimento tendem a apresentar menos sinais de desânimo profundo, justamente porque conseguem organizar mentalmente metas e alternativas para a própria vida.
Importante lembrar: esperança não é dom com o qual se nasce. Ela pode ser desenvolvida ao longo da vida. Nosso cérebro é capaz de criar novas conexões — a chamada neuroplasticidade — permitindo aprender, reaprender e reconstruir sentidos. Assim como se aprende um ofício ou se cuida de uma roça, a esperança também se treina. Envolve escolhas diárias, pequenas ações e a decisão de não desistir.
Para a Amazônia e seu povo, esperançar é resistir com dignidade. É acreditar no futuro sem fechar os olhos para a realidade.
É lutar por desenvolvimento com sustentabilidade, por justiça social, por vida plena. Esperançar é verbo coletivo — e, mais do que nunca, necessário.
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Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





