A literatura e a história do Amazonas: uma identidade esquecida por nós mesmos
A literatura e a história do Amazonas: uma identidade esquecida por nós mesmos – A literatura e a história do Amazonas enfrentam, há décadas, um processo silencioso de esquecimento. Não apenas por forças externas, mas também por um abandono interno — nosso próprio povo, especialmente os jovens, já não se reconhece na música, no folclore, na história e na produção intelectual da região.
Vivemos um tempo em que narrativas prontas tomaram conta de tudo. O que não é atualizado, difundido ou valorizado, desaparece. E assim, pouco a pouco, vamos perdendo nossa identidade cultural. Alguns críticos preferem responsabilizar outras regiões do país por esse apagamento, mas a pergunta central permanece: o que nós, amazônidas, estamos fazendo para preservar aquilo que somos?
A Fama Amazônica propõe aqui um reencontro com essa identidade esquecida, a partir das pesquisas do redator e escritor Almir Souza, que há anos investiga a literatura, a história e os símbolos culturais do Amazonas.
A história além do óbvio
Reduzir a história do Amazonas apenas ao ciclo da borracha é um erro grave e limitador. A região carrega uma trajetória muito mais profunda e diversa.
Ocupação indígena milenar
Antes de qualquer colonização, o território amazônico já era ocupado por povos originários com sistemas complexos de organização social, saberes, espiritualidades e narrativas orais. Essa memória viva é a base da cultura amazônica, embora muitas vezes seja ignorada ou silenciada.
Período colonial e disputas territoriais
O Amazonas foi alvo de disputas entre potências europeias, interessadas em sua posição estratégica e riquezas naturais. O Tratado de Madri, em 1750, consolidou a posse portuguesa sobre a região, redefinindo fronteiras e influenciando profundamente sua formação política.
Do forte à província
Manaus teve origem com a construção do Forte de São José do Rio Negro, em 1669. Em 1850, durante o reinado de Dom Pedro II, o Amazonas tornou-se província, marcando um novo ciclo de organização administrativa e social.
O ciclo da borracha
Esse período projetou Manaus internacionalmente, transformando-a em uma cidade de contrastes: luxo extremo para poucos e exploração brutal para muitos. A literatura da época registrou tanto o glamour quanto as desigualdades sociais, criando uma narrativa complexa e contraditória que ainda ecoa na memória amazônica.
A literatura “esquecida” e seus autores
A literatura amazonense — ou de expressão amazônica — é rica, plural e resistente. Ela confronta estereótipos e constrói uma visão própria da região, baseada em vivências locais e não em olhares externos.
Pioneiros e clássicos
O primeiro poeta amazonense registrado, Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (1769), marca o início formal da produção literária no Amazonas. Obras fundamentais, como A Invenção da Amazônia, de Neide Gondim, ajudam a compreender como a imagem da região foi construída — muitas vezes de fora para dentro.
Autores contemporâneos
Nomes como Milton Hatoum, com Relato de um certo Oriente, alcançaram reconhecimento nacional e internacional. No entanto, inúmeros escritores locais seguem invisibilizados, apesar da qualidade de suas obras.
Thiago de Mello, por exemplo, traduziu em poesia o cotidiano ribeirinho, as lendas do boto, da cobra grande e a relação profunda entre o homem e o rio, com linguagem simples, verdadeira e profundamente amazônica.
Literatura indígena
O Amazonas também abriga uma produção literária indígena significativa, ainda pouco explorada fora de círculos acadêmicos. Essas obras são fundamentais para o registro das realidades, poéticas e cosmovisões dos povos originários, contribuindo para um verdadeiro letramento étnico no Brasil.
Memória viva e resistência cultural
Sebos e bibliotecas de Manaus — como o tradicional Sebo do Largo — guardam obras raras e documentos históricos que são verdadeiros tesouros da memória amazônica. São fontes indispensáveis para pesquisadores, estudantes e leitores que desejam compreender a Amazônia para além dos clichês.
Valorizar essa literatura é mais do que um ato cultural: é um gesto de resistência. É afirmar que a Amazônia não é apenas cenário, mas voz, pensamento, escrita e identidade.
Se não contarmos nossa própria história, outros o farão por nós — e quase nunca com fidelidade.
✍️ Texto: Almir Souza
📘 Fama Amazônica | Literatura, História e Identidade Cultural
Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS





