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Bem-Viver: A Filosofia Ancestral para um Mundo em Transformação

Bem-Viver: A Filosofia Ancestral para um Mundo em Transformação – A percepção de que vivemos um tempo de transformações velozes e profundas é global. Uma pesquisa realizadaem 31 países revelou que quase oito em cada dez pessoas sentem que o mundo está mudando rápido demais.

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Há milhares de anos, os povos originários já cultivavam uma filosofia que ensina a viver bem, aproveitar o presente e sonhar com o futuro. Raízes apagadas e vozes que resistem. O processo colonizatório iniciado no século XVI buscou eliminar símbolos e arquétipos dos povos originários, considerados “pagãos”.

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Mas hoje, intelectuais, artistas e lideranças indígenas estão nos convidando a redescobrir e praticar essas sabedorias ancestrais. “Aprendi na escola pública lições a respeito do meu povo e dos meus parentes como se nem eles nem eu existíssemos mais”, conta uma liderança indígena, ao relatar o apagamento cultural que ainda persiste.

O que é o bem-viver?

Para praticar o bem-viver, é preciso cuidar de três aspectos:
o lugar interior, o lugar que o indivíduo ocupa no mundo e o lugar coletivo, chamado comunidade.

O bem-viver nasce da junção do bem-pensar, bem-sentir e bem-fazer.
É diferente do “viver bem” idealizado pela sociedade de consumo — que muitas vezes confunde felicidade com aparência.

“No bem-viver, a riqueza e a beleza estão no coração. E esse coração, equilibrado, reflete em beleza e abundância exterior, porque valoriza a qualidade das relações e o cuidado com o espaço onde se vive.”

Com linguagem simples e poética, essa filosofia milenar revela o equilíbrio entre pensamento, sentimento e prática, sempre em conexão com o coletivo.

A comunidade e a natureza não são elementos externos à existência, mas partes inseparáveis dela.
A natureza não é um recurso: é parte da família.

Cuidar do lugar interior

Na tradição Guarani, Anham representa os males, obstáculos e forças desestruturantes que habitam o espaço interno.

Os rituais de contemplação, escuta e reconexão com a ancestralidade ajudam a reconhecer e transformar essas forças, abrindo caminhos de cura e fortalecimento pessoal e coletivo.

Narrar para sobreviver

O tekoá-porã — o lugar do bem-viver — é mais que um modo de vida: é uma narrativa regenerativa.
Em uma sociedade inundada por dados e desinformação, o bem-viver oferece sentido.
Ele reconecta as ações humanas às necessidades de um planeta em crise.

Sonhar o futuro

Entre os Guarani, sonhar é um ato coletivo.

Antigamente, havia o nhe-ngá oiko-angá — o “sonhador de caminhos” —, aquele capaz de sonhar o lugar ideal para fundar uma aldeia.

Esses sonhos guiavam a comunidade na busca por territórios férteis, com alimento, água e abrigo.

Hoje, esse mesmo espírito pode nos inspirar a cultivar novos futuros possíveis, físicos e simbólicos — lugares onde o cuidado, a escuta e a partilha sejam novamente o centro da vida.

A arte de viver bem

O bem-viver não é uma utopia romântica.

É uma prática concreta e ancestral que começa dentro de cada um e se expande para o mundo.

Em tempos de colapso climático, ansiedade tecnológica e fragmentação narrativa, o tekoá-porã pode ser o solo fértil de onde brotam outros modos de existir.

Cuidar do lugar interior é o primeiro passo para curar o lugar que habitamos juntos: a Terra.

Revista Fama Amazônica — Conhecimento, ancestralidade e futuro.

Por Almir Souza
Fonte Redação Fama
Foto AAS

Almir Souza

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